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quarta-feira, abril 15, 2009

Os US$ 5 trilhões do G20 solucionarão a crise?

Os US$ 5 trilhões do G20 solucionarão a crise?


Depende.


A débâcle mundial surgiu nos EUA. Começou com a desaceleração
econômica no país há cerca de dois anos, em 2007. Isto aumentou a
insolvência do mercado imobiliário, que havia assumido riscos muito
além do que a prudência recomendaria. Tomou proporções alarmantes com
a crise de credibilidade financeira, que não deve ser confundida com
crise de liquidez, sendo deflagrada pela imperícia das autoridades
econômicas do governo Bush, que permitiram a quebra do banco Lehman
Brothers.


O sistema financeiro tem efeitos econômicos semelhantes aos das
"utilities", ou serviços do tipo energia elétrica, água e gás. Esses
setores, que por suas características específicas compõem a
infra-estrutura da economia, não podem deixar de existir, ou quebrar,
sejam eles público ou privado, sob pena de aniquilar toda a produção.
Os bancos são semelhantes. Irrigam o sistema produtivo. A ausência de
crédito, quase tanto como a falta de energia elétrica, paralisa a
atividade econômica.


A barbeiragem dos norte-americanos foi permitir que um setor
estratégico como o financeiro, cujos fundamentos estão assentados na
credibilidade, confiabilidade e solidez, ficasse com sua imagem
comprometida. Isto se deu pela quebra do Lehman Brothers, dando início
à crise sistêmica que se alastrou pelo mundo globalizado. As
expectativas se deterioraram, os empresários se retraíram e a liquidez
passou a valer mais que a rentabilidade. Os investimentos cessaram, o
comércio externo e o crédito encolheram e a retração econômica se
instalou.


Três perguntas estão no ar.


1-) A injeção maciça de cinco trilhões de dólares (como anunciado
ontem no G-20) resolverá o problema? Os governos estão injetando
liquidez na veia da economia, diretamente, através de aumento de
gastos públicos, não importando quais, desde que o dinheiro seja
abundante e disponível.


Tais medidas ajudam a superar a recessão, como qualquer aumento de
liquidez em qualquer fase do ciclo econômico faria para aumentar a
demanda agregada. Mas, isto não vai ao cerne da questão que é a
recuperação da credibilidade dos bancos. E parece que o mundo está
dando cabeçadas sobre como restaurar a confiabilidade do sistema
financeiro. Sobra liquidez, mas empoçada porque falta confiança.


O governo Barack Obama percebeu que a mera injeção de liquidez não
resolveu o problema. E agora volta ao projeto inicial de Bush,
propondo a limpeza dos balanços dos bancos mediante compras de ativos
tóxicos Mas será que os bancos venderão esses títulos? Afinal, muitos
desses papéis estão escriturados por valores históricos, pois a
marcação a mercado não é universal nos EUA. A venda de títulos abaixo
do valor escriturado evidenciará a fragilidade que os bancos tentam
esconder, e agravará ainda mais a perda de confiança que os ameaça. O
Plano Obama ainda é uma incógnita.


2-) Quais os efeitos dessa inundação de liquidez? A ciência econômica
ainda não rejeitou o fato de que a inflação é um fenômeno monetário.
Assim sendo, o que nos espera no futuro? A liquidez aumenta, os
déficits públicos explodem, o tamanho do setor público cresce a cada
dia. Voltaremos aos anos 1970 e 1980, com inflação crescente, baixo
crescimento, instabilidade, insolvências em cadeia e governos
inchados?


O pêndulo uma hora irá para o outro extremo, com políticas fiscais e
monetárias restritivas e baixo crescimento. Contudo, o que mais
perturba é pensar que esse preço alto que o mundo pagará pelo
expansionismo monetário atual poderá ser em vão se a crise de
confiança no sistema financeiro não for urgentemente sanada.


3-) Uma terceira dúvida é se a maciça injeção de liquidez será eficaz
para aumentar a demanda agregada e dar início ao crescimento da
produção e do comércio internacional. Certamente o efeito será
positivo. Mas poderia seria mais eficiente cortar impostos ao invés de
elevar os gastos. O impacto expansionista da elevação das despesas
governamentais é maior, no curto prazo, do que o da redução de
tributos. Contudo, a propensão a consumir dos agentes econômicos é uma
função de sua renda permanente. Aumentos de renda vistos como pontuais
e passageiros, como gastos públicos emergenciais, têm baixa propensão
marginal a consumir, enquanto que a percepção de aumento de renda
permanente, derivada de cortes de impostos, torna-a mais elevada.


Os gastos públicos maiores são percebidos como não-sustentáveis a
longo prazo, e serão seguidos por períodos de contenção fiscal. Isso
faz com que a renda adicional gerada pelas despesas governamentais
seja em boa parte poupada, e menos consumida do que se fosse um
aumento de renda permanente, como ocorreria se a governo adotasse um
corte uma política de contenção tributária continuada.


Como política de expansão econômica, os governos mundiais deveriam
fazer um grande esforço para reduzir impostos. Dado um mesmo déficit
público, é melhor que ele seja produzido por cortes de impostos do que
por aumento de gastos.

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Professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Próximo artigo do autor em 5 de maio.

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