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segunda-feira, março 31, 2008

Presidentes de bancos estão em queda livre com a crise do subprime

A crise do subprime desferiu um duro golpe no setor financeiro. Enquanto uma nervosa Wall Street aguarda para ver a plena extensão dos estragos, presidentes-executivos estão sob pressão para explicar o que saiu errado, e justificar seus altos salários.

Frank Hornig

Um homem como James Cayne, 74 anos, poderia facilmente atuar como um astro de um filme de Hollywood sobre o mandachuva macho, rude mas eficaz, de Wall Street. Cayne, presidente do banco de investimento Bear Stearns, parece ser bem autêntico.

Por outro lado, a imagem de Cayne é tão clichê que é difícil acreditar na persona que ele desenvolveu para si mesmo. Ele fuma charuto no escritório, apesar da rígida política que proíbe fumar. Ele não está interessado no horário de trabalho normal. Freqüentemente nas quintas-feiras, ele toma um helicóptero para fugir dos arranha-céus de Manhattan para jogar golfe em seu country club favorito em Nova Jersey. A viagem leva apenas 17 minutos, mas custa US$ 1.700.

No mundo de Cayne, tudo é muito maior e mais caro -mas também mais insano.

Mesmo durante grandes crises, Cayne não negligencia seus hobbies. Enquanto dois de seus fundos hedge entravam em colapso em julho passado, quando ainda era o presidente-executivo do banco, ele viajou de forma relaxada para um torneio de bridge em Nashville, Tennessee, que durou vários dias. Seus funcionários lutavam para sobreviver, mas Cayne, que já conquistou vários campeonatos de bridge norte-americanos, estava incomunicável; ele desligou seu celular. Afinal, teria distraído o ás do bridge, com seu característico cabelo loiro secado com secador, caso o telefone tivesse tocado enquanto estivesse à mesa de carteado.

Ele também foi um dos maiores jogadores no cassino das finanças globais. Dificilmente alguma coisa, da queda de preços e despencar dos lucros aos ataques de pânico nos mercados, poderia incomodar o banqueiro, nem mesmo as alegações de que fumava maconha com freqüência.

"Não deixem o barulho incomodar vocês", ele escreveu para seus colegas em um memorando em novembro, "eu não deixo". Além disso, ele anunciou confiantemente que seus 14 anos no cargo eram um "sucesso recorde". Pouco tempo depois ele renunciou como presidente-executivo, mas permaneceu como presidente do conselho.

O "sucesso recorde" chegou a um fim abrupto no penúltimo fim de semana. O fato de Cayne ter deixado antecipadamente o torneio de bridge em Detroit e voltado às pressas para Manhattan, para reuniões de crise, não ajudou a empresa. O Bear Stearns, o quinto maior banco de investimento nos Estados Unidos e famoso por sua respeitabilidade, arrogância e ar cuidadosamente cultivado de exclusividade, estava à beira do colapso.

Apenas um aporte de US$ 30 bilhões do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderia salvar o tradicional banco de investimento da ruína. Agora ele foi parar nas mãos da concorrência, a um preço de liquidação -em 16 de março, o J.P. Morgan Chase disse que compraria o Bear Stearns por meros US$ 240 milhões.

O preço das ações do Bear Stearns despencou em mais de 80% em um dia. Em comparação ao valor das ações no início do ano, não restou nada além de cinzas da antiga glória da empresa. As perdas são semelhantes em escala às de muitas empresas da bolha de Internet durante a pior fase dos banhos de sangue da Nova Economia.

O caso é sintomático da visão de mundo, auto-imagem e realidade do dia a dia de muitos importantes banqueiros, especialmente na meca das altas finanças, Manhattan. Eles já foram os reis do mundo, os deuses do bônus, os super-ricos no cosmo do grande dinheiro -simultaneamente empregados e reis.

Mas o patrimônio deles no final não era nada mais que promessa: a promessa de transações financeiras respeitáveis e a promessa de que tudo seguiria bem no mundo das dívidas e créditos das finanças globais. Mas nada foi bem. Por muito tempo -tempo demais- o público foi apaziguado, a indústria foi glorificada e promessas foram feitas, com os problemas por trás sendo encobertos com mentiras.

Mas no segundo semestre do ano passado, todo o setor foi desmascarado como sendo pouco mais do que uma casa de apostas. Parte do que estava sendo apostado era a confiança depositada por clientes e pequenos investidores juntamente com seu dinheiro. Muitas apostas foram perdidas. Assim como muito dinheiro -e ainda mais confiança.

A economia mundial foi abalada por uma série de revelações cada vez mais dramáticas. Primeiro, as perdas se limitavam a um punhado de bancos, mas depois começaram a se empilhar em alturas vertiginosas por todo o setor financeiro, à medida que as empresas eram forçadas a dar baixas cada vez maiores nos livros, primeiro US$ 200 bilhões, depois US$ 400 bilhões, então US$ 600 bilhões.

Os cavalheiros em ternos de risca de giz provaram ser assaltantes de bancos. Somas recordes viraram fumaça. Na segunda metade de 2007, o Citigroup sozinho deu baixa em mais de US$ 24 bilhões em dívidas ruins em conseqüência de seus empreendimentos especulativos. Nenhuma gangue de ladrões jamais poderia roubar tanto dinheiro de um cofre bancário.

O senso da magnitude de suas próprias ações foi completamente perdido no processo. O corretor de ações francês, Jérôme Kerviel, por exemplo, perdeu em apostas 4,9 bilhões de euros (US$ 7,6 bi) em dinheiro de seu empregador, o Société Générale. " Você perde o senso das somas envolvidas quando está neste tipo de trabalho", ele disse para a agência de notícias "The Associated Press" em uma entrevista. "Você se deixa levar."

O banco de investimento Goldman Sachs agora espera uma perda total para todo o setor de mais de US$ 1,1 trilhão. Mas mesmo isto não será o fim. "Esta se tornou a nova gripe aviária", disse Barry Ritholtz, da firma de pesquisa IQ de Nova York, para o "Wall Street Journal". "Ela infectou todo mundo."

Apenas a casta dos presidentes-executivos e seus altos executivos provou ser relativamente resistente até agora. Nos Estados Unidos, apenas duas grandes instituições financeiras, o Citigroup e o Merrill Lynch, substituíram seu comando até o momento. Mas por mais desprezados que estivessem, os presidentes-executivos partiram com enormes pagamentos em seus bolsos. Stan O'Neal, o ex-presidente-executivo do Merrill Lynch, recebeu um pacote de rescisão de contrato no valor de US$ 161 milhões, apesar da empresa sob seu comando ter perdido cerca de US$ 9 bilhões no ano passado.

Mas agora essa confiança está em falta no mercado, assim como novo capital. Os bancos já pararam de emprestar dinheiro uns aos outros por temerem que não o verão de novo.

Altos executivos de todos os grandes bancos de investimento agora estão em uma situação incomum. Por anos, eles foram os superastros do capitalismo, acostumados ao sucesso. Eles eram os arquitetos da globalização, cujo trabalho era melhorar o desempenho mundial, magos financeiros que podiam, aparentemente sem esforço, obter retornos de 20%, 30% ou 40%. Mas parte do sucesso deles se devia aos "inovadores" produtos hipotecários que posteriormente infectariam bancos de Nova York até Hong Kong.

Agora eles precisam lutar com o declínio e determinar como os excessos aconteceram, assim como aceitar seu fracasso pessoal -um pouco como Britney Spears em um programa de desintoxicação. As baixas estão por toda parte, enquanto um público global consternado observa.

O "Wall Street Journal", um admirador tradicional dos bancos de investimento e que agora está fazendo comentários cáusticos sobre o desempenho deles, escreveu recentemente que as ações do J.P. Morgan tiveram melhor desempenho que a de seus concorrentes neste ano -afinal, elas só perderam 13%.

'Apertos de mão dourados' e doença mental
Os líderes de um setor antes poderoso agora estão sendo criticados abertamente. Recentemente, o ex-presidente-executivo do Citigroup, Chuck Prince, e Chuck O'Neal, do Merrill Lynch, foram forçados a suportar as críticas e escárnio dos legisladores durante uma audiência no Congresso.

"Enquanto a música estiver tocando, é preciso se levantar e dançar", Prince disse ao "Financial Times" em julho, explicando a política de investimento de seu banco. O crash aconteceu pouco tempo depois e seu empregador perdeu US$ 100 bilhões em valor de mercado.

Não foi um problema para Prince, que foi demitido com um pagamento rescisório de mais de US$ 40 milhões, mais escritório, secretária e chofer pelos próximos anos. Mas mesmo os americanos, que adoram histórias de sucesso e carreiras deslumbrantes, já estão cheios destes agentes avarentos.

Eles sofrem com alguma culpa? Arrependimento? Publicamente, pelo menos, estes malabaristas financeiros afastados ainda estão ocupados negando a realidade. Sua compensação foi "consistente com os níveis salariais do setor", disse O'Neal para legisladores estupefatos em Washington. "Tudo o que consegui na vida foi resultado de uma combinação única de sorte, trabalho duro e oportunidade que só existe neste país", ele disse. E Prince, a quem o maior acionista do Citigroup, o príncipe saudita Al Waleed Bin Talal, descreveu no ano passado como sendo alguém que não sabe nada de setor bancário, considerou sua compensação "justa". Afinal, ele trabalhou "arduamente".

Mas nestes e outros casos, compensações "baseadas no desempenho" ou no "mercado" freqüentemente não são nada a não ser palavras no papel. Na verdade, muitos executivos de bancos freqüentemente garantem pacotes rescisórios abrangentes quando iniciam seu trabalho, um pacote que inclui "golden handshakes" ("aperto de mão dourado", quantia em dinheiro paga por aposentadoria ou demissão) extremamente generosos para o caso de algo sair errado. Richard Fuld, por exemplo, pode aguardar pelo recebimento de US$ 299 milhões caso ele e seu empregador, o Lehman Brothers, resolvam seguir caminhos separados.

O Bank of America, a maior instituição financeira nos Estados Unidos por capitalização de mercado, aliviaria a dor de uma possível saída de seu atual chefe, Kenneth Lewis, com US$ 120 milhões. E os presidentes do Goldman Sachs e Morgan Stanley também poderiam assistir ao colapso dos mercados financeiros com tranqüilidade. Em uma crise, ambos deixariam seus escritórios com pacotes rescisórios no valor de mais de US$ 75 milhões cada.

Dificilmente qualquer outra profissão experimentaria tamanho crescimento salarial recente quanto os funcionários de bancos em Wall Street. A temporada anual de bônus sempre foi ocasião para celebração entre os corretores. E as coisas consistentemente melhoravam. Nas duas décadas até 2006, os bônus aumentaram de US$ 2,2 bilhões para US$ 33,9 bilhões -muito mais que o índice Dow Jones.

Mesmo em 2007, um ano de crises, os bancos de investimento de Nova York ainda provaram ser generosos. Enquanto os primeiros temores de recessão começavam a circular mundialmente, os mercados ruíam e os preços de suas próprias ações começavam a cair, eles reduziram os bônus de seus empregados em apenas 2%.

Em média, cada banqueiro ainda recebe US$ 180 mil além de seu salário -US$ 80 mil a mais do que nos melhores dias da Nova Economia, na virada do milênio.

Mas diante dos recentes excessos e da continuidade das crises, o entendimento de que uma mudança da maré está ocorrendo está gradualmente penetrando nas hierarquias. Grandes demissões como no Lehman Brothers, onde mais de 2 mil banqueiros perderam seus empregos, causaram alvoroço em meio aos subalternos. A situação é ainda pior no Bear Stearns, onde metade das 14 mil vagas de trabalho da empresa provavelmente será cortada.

Em East Hampton, um destino popular de descanso para banqueiros de Nova York e administradores de fundos hedge, o número de casas à venda neste ano aumentou 40% em relação ao ano passado. Até mesmo leilões de execução hipotecária chegaram à luxuosa comunidade litorânea. No passado, as elites do setor financeiro elevavam os preços em East Hampton temporada após temporada. Mansões respeitáveis em localizações desejáveis não saíam por menos de US$ 20 milhões.

Fabricantes de carros esportivos e de luxo também estão vendo queda nas vendas nos Estados Unidos. A Ferrari e a BMW informaram uma queda de 22% a 27% nas vendas, enquanto as vendas da Jaguar caíram em mais de 50%.

Até mesmo os joalheiros da Tiffany's parecem preocupados com seus negócios nos Estados Unidos, apesar da lendária joalheria na Quinta Avenida ter acabado de abrir uma filial em Wall Street no ano passado.

Mas estes não são sinais de verdadeira aflição, pelo menos ainda não. Todavia, na Manhattan saturada de luxo, que depende da ascensão e queda do setor financeiro, esses relatos ainda causam preocupação, assim como os relatos dos terapeutas com clientela de Wall Street. Eles estão vendo um aumento de separações, ataques de fúria e uso excessivo de drogas e álcool entre seus pacientes.

Alden Cass, por exemplo, é um psicólogo que, por anos, se especializou nos problemas enfrentados por corretores e escreveu vários estudos sobre o assunto. Um deles concluiu que 20% dos corretores de Nova York sofrem de depressão -três vezes mais do que entre os americanos em geral. Segundo Cass, "estes corretores que mostram os maiores sinais de depressão, ansiedade, esgotamento emocional e baixa capacidade de superação também são os mais bem-sucedidos financeiramente".

É claro, lidar com a flutuação constante entre altos e baixos emocionais -especialmente os baixos- é de arrasar os nervos. "Enfrentar esta realidade toda manhã pode ser uma experiência insensibilizadora que, com o tempo, pode levar a um esgotamento", escreveu Cass em sua coluna regular no site financeiro "TheStreet.com". Ele acredita que até mesmo há uma "epidemia de doença mental" no setor.

Mas Cayne, o ex-presidente do Bear Stearns, parece estar entre aqueles que preferem reprimir suas emoções. O drama que cerca seu banco o atinge onde provavelmente mais dói em um homem como ele: em sua carteira.

Desde janeiro de 2007, o valor das ações de Cayne no Bear Stearns desvalorizou de US$ 1,2 bilhão para apenas US$ 13,4 milhões.

Tradução:



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